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sexta-feira, 4 de abril de 2014

Kumba Ialá


ACABEI DE saber que morreu Kumba Ialá, o controverso ex-presidente guineense e um dos grandes responsáveis pelo estado caótico a que chegou a Guiné-Bissau. Quando li a notícia da sua morte, vieram-me à mente vários episódios protagonizados por esta controversa e inimaginável figura que, sendo Presidente da República, abastecia pessoalmente os porta-bagagens da sua frota presidencial de Mercedes de grades e grades de cerveja no mercado de Bissau ou pura e simplesmente, sem que lhe caissem os parentes na lama, mandava parar a caravana em que seguia para, à frente de toda a gente e em plena via pública, fazer as suas - chamemos-lhe assim… - "necessidades". Ou mesmo aquela noite em que um golpe de estado o derrubou e, dada a monumental "carraspana" com que se encontrava, só deu por isso (e por estar detido) na tarde do dia seguinte... Mas ao ler o post que o embaixador Francisco Seixas da Costa publicou no seu blogue e que relata uma hilariante passagem de Kumba pelas Nações Unidas, acho que, depois disso, já não é preciso contar (ou dizer) mais nada. A palavra pois, com a devida vénia, a Seixas da Costa:
"(…) Um dia de 2001, na ONU, em Nova Iorque, estive presente, em representação de Portugal, numa reunião do grupo "amigos da Guiné-Bissau". O novo presidente guineense fora convidado a fazer uma apresentação sobre a situação no seu atribulado país, com vista a mobilizar a boa vontade e a ajuda da comunidade internacional. O tempo que lhe fora destinado para intervir foi largamente excedido, mas o seu discurso tinha coerência e demonstrava uma determinação no sentido da correção de algumas políticas, tudo envolvido num registo muito típico, desde logo marcado pelo barrete de lã vermelha que nunca o abandonava.
Com o meu colega brasileiro, Gelson Fonseca (atual cônsul-geral do seu país no Porto), e para potenciar o efeito positivo da reunião, combinei duas intervenções sucessivas de apoio à declaração do presidente, procurando dar ênfase à sua expressiva vontade de mudança. Outros embaixadores, em especial de países "do Sul", seguiram uma linha idêntica e, a meio da reunião, o ambiente podia considerar-se globalmente positivo, quiçá apenas com as reticências face à sustentabilidade das políticas que algumas lideranças africanas, em especial oriundas de países mais frágeis, nunca deixam de suscitar.
O delegado de um país do Norte da Europa abordou entretanto a sensível questão da corrupção. Notei que Kumba Ialá ficou muito atento à intervenção e, no imediato, pediu para responder. Com ênfase, marcou a sua firme determinação em pôr fim ao flagelo da corrupção no seu país. E, a certo passo, agarrando firmemente o ombro da ministra dos Negócios Estrangeiros, que estava a seu lado, disse, bem alto:
- Vou ser muito duro, podem acreditar. Por exemplo: aqui a senhora ministra. Se eu vier a descobrir que ela rouba, que é corrupta, podia mandar matá-la. Mas não, não a vou mandar matar! Mas vai levar tanta porrada, tanta pancada, que nunca mais vai querer roubar. Mas ele não rouba, não! - e dizia isto, contemporizador, abanando a constrangida ministra, que afivelava um sorriso que quero crer que seria amarelo...
Kumba Ialá falava em português e, na sala, para além do embaixador brasileiro e de mim próprio, que tínhamos olhado um para o outro algo preocupados com o facto do presidente poder ter "estragado tudo" com estas palavras, creio que só a intérprete que ia traduzindo as intervenções do presidente se inteirara do teor da comprometedora declaração. Contudo, a coreografia e o tom de Ialá tinham criado uma particular curiosidade nas restantes pessoas à roda da mesa, que aguardavam a tradução.
A intérprete, consciente da delicadeza do momento, olhou para mim, em busca de "ajuda" para superar o problema. Fiz-lhe um gesto discreto, a pretender significar a necessidade de "adocicar" fortemente as embaraçantes frases do presidente. E foi então que assisti a uma magnífica demonstração de profissionalismo, com a senhora a dizer algo como: "Mr. President wants to emphasize that corruption, in his country, is not punished with death penalty. Nevertheless, under his leadership strong mesures will be taken against those who may incur in such practices, even if they are members of his own government".
Olhei para o meu colega brasileiro e demos um suspiro de alívio. No final, dei uma palavra de parabéns (e gratidão) à intérprete. Tinha-nos ajudado a salvar a sessão. Uhf!". Genial...

Uma escolha que é um sinal...



EU ACREDITO que Miguel Frasquilho seja competente para liderar a AICEP - aliás nada me leva a pensar o contrário. Porém quando um governo perde a capacidade de "recrutar" fora do seu espaço partidário ou pura e simplesmente não tem imaginação para ir buscar alguém fora do seu "território" para ocupar um cargo que obrigatoriamente não tem de ser ocupado por um "comissário político" é um sinal evidente que o seu prazo de validade começa a esgotar-se. 

terça-feira, 1 de abril de 2014

Meio-século depois, um Brasil convictamente democrático...


CINQUENTA ANOS depois de um golpe militar no Brasil ter derrubado o presidente  João Goulart e ter dado azo a um período que durou mais de duas décadas e em cujo “cadastro” constam mais de 300 mortos e desaparecidos, a “Folha de S. Paulo” publicou na sua edição de domingo uma sondagem onde, pese alguns sinais de visível descontentamento nos últimos tempos, a população brasileira mostra-se identificada maioritariamente com a democracia. Segundo o estudo do instituto “Datafolha”, 62 por cento dos inquiridos consideram que a democracia indiscutivelmente “é o melhor dos regimes”, uma percentagem recorde desde que, em 1989, aquele instituto começou a promover anualmente este estudo. Dos restantes 38 por cento, 16% afirmam ser-lhes "indiferente" viver em democracia ou ditadura, enquanto 14 por cento afirmam preferir a ditadura, sendo que 8% não sabem ou não possuem opinião.
 Há 25 anos atrás, quando a democratização estava a dar os seus primeiros passos e ainda no rescaldo do eleição do controverso Collor de Mello, apenas 43 por cento dos inquiridos afirmavam acreditar na democracia, o que leva alguns analistas a interpretar esta crescente manifestação de confiança no regime por parte dos brasileiros como claramente influenciado pelo reforço dos direitos sociais que ocorreram desde a democratização, bem como os programas sociais protagonizados pelos últimos governos e o impacto que essas mesmos programas  possuíram junto das classes mais desfavorecidas que associam a sua melhoria de vida à democracia.

Mas – claro... – existe o outro lado da moeda. E aí, entre e esmagadora maioria dos brasileiros que se revêem na democracia, mais de 60 por cento apontam a corrupção, a segurança e a saúde como os principais problemas que a afectam e que mais preocupação causam. Três temas que, juntamente com a educação, vão marcar a "agenda" das eleições que se avizinham e que em Outubro escolherão presidente, senadores e deputados que governarão o Brasil nos próximos 4 anos.