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domingo, 14 de dezembro de 2014

Eike: tudo ou nada...


SÃO 545 páginas que resumem magistralmente a vida e os negócios do controverso Eike Batista, o brasileiro que chegou a ocupar o 7º lugar na lista da "Forbes" e que foi asim uma espécie de "garoto propaganda" de um Brasil emergente dos tempos de Lula.  Curiosa e coincidentemente um Brasil que, a par do próprio Eike, começou em termos económicos a dar sinais de uma fadiga preocupante e que o afasta gradualmente de uma ribalta que ambos ocuparam durante os anos e apogeu.  "Tudo ou Nada, a verdadeira história do grupo X", de Malu Gaspar, jornalista da "Veja", é uma excelente reportagem de cinco centenas de páginas e que retrata de forma aparentemente fiel os bastidores de uma ascensão meteórica e pouco sustentada de alguém que, de forma magistral, "soube vender powerpoints como ninguém". A ascensão e a queda, diga-se de passagem...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Jose Luís Villalonga: a propósito da famíla Espirito Santo


PARA QUEM gosta de memórias e biografias, as de José Luís de Villalonga são certamente das mais apetecíveis: "Memorias no autorizadas" assim se intitulam os 4 volumes que relatam a vida cheia do marquês de Castellvell durante os 87 anos que por aqui andou. Ele foi e fez um pouco de tudo: foi actor, escritor (mais de 24 livros publicados, entre os quais uma biografia do Rei Juan Carlos e um extraordinário "Sable del Caudillo"), jornalista, porta-voz em Paris da Junta Democrática de Espanha, mas acima de tudo o que costuma chamar-se um homem do mundo e com mundo.
No início dos anos 40, o então jovem Villalonga passou pelo Hotel Palácio, no Estoril, a caminho de Londres, onde terminaria a sua viagem de núpcias. Como ele descreve no primeiro volume das suas memórias, o hotel era então uma verdadeira "torre de Babel", dada a infinidade de refugiados que ali residiam, vindos um pouco de toda a parte. Aquilo que o jovem casal Villalonga (José Luís e Pip) esperava ser um pouco mais que uma escala de cinco ou seis dias, tornou-se numa longa espera, dada a demora do consulado britânico em conceder-lhe visto, apesar de ter casado com uma cidadã inglesa. O tempo foi passando, o dinheiro (que já era pouco) acabando e, por indicação telefónica de sua mãe, decidiu contactar um amigo da família de muitos anos - Ricardo Espírito Santo: "Telefona ao Ricardo. Vai vê-lo e conta-lhe da minha parte o que ocorre. Ele resolve a situação", disse-lhe, desde Barcelona, a então marquesa de Catellvell, certa que o amigo de anos acudiria prontamente ao filho.
A partir da página 338 do primeiro volume das suas memórias, Jose Luis Villalonga relata pormenorizadamente o que veio a ocorrer posteriormente:

"(...) Ricardo Espírito Santo, dono do banco do mesmo nome, era um amigo que meus pais frequentavam muito em Biarritz. Consegui o telefone de sua casa graças a Ramon Padilla e consegui falar com o seu secretário particular, a quem, depois de dar-me a conhecer, expliquei que necessitava urgentemente de encontrar-me com don Ricardo. Ao fim de uma hora, o secretário devolveu-me a chamada e transmitiu-me o convite para almoçar no dia seguinte às duas da tarde e casa dos Espírito Santo.
Chegámos ao palacete do banqueiro certo que vamos solucionar o nosso problema (...) Acesos os charutos, Ricardo Espírito Santo propôs-nos que passáramos ao seu escritório, onde poderíamos falar tranquilamente do nosso assunto. Posto rapidamente ao corrente do que nos preocupava e da conversa telefónica com a minha mãe, o banqueiro comentou com um sorriso despreocupado:
 - Vocês estão na mesma situação que centenas de pessoas que se sentem presas no Estoril como numa ratoeira. Mas tudo tem solução, para que é que servem os amigos? - com uma caneta de ouro escreveu umas letras numa folha de um bloco e ao estender-me, acrescentou - : Vão amanhã a este endereço e perguntem da minha parte pelo senhor Soares. ele resolverá o vosso problema.(...)
O número da casa a que  os dirigimos na manhã seguinte estava a duas portas do Monte de Piedad*, a casa de penhores onde se formava uma fila de mais de uma centena de pessoas. Quando anunciei a uma espécie de porteiro que vínhamos ver o senhor Soares da parte de don Ricardo Espírito Santo, o homem apressou-se a conduzir-nos ao gabinete que procurávamos.
O senhor Soares (...) era um um orondo anão com coroinha de bispo que cada vez que mencionávamos o nome de nosso amigo fazia questão de levantar-se do assento. Após as banalidades do costume, coloquei o anão ao corrente do nosso problema. Escutou-me pacientemente e quando acabei de falar, disse:
 - Sendo amigos do senhor Espírito Santo farei o melhor que possa para atendê-los devidamente - Acomodou-se na sua cadeira e, olhando para a minha mulher, murmurou -: Tenho uma grande curiosidade para saber o que me traz a senhora...
Pip e eu olhámo-nos sem compreender.
  - Que quer o senhor dizer, senhor Soares?
 - Pergunto minha senhora, que me traz? Ouro, platina, prata, talvez diamantes ou outras pedras preciosas? O ouro é o mais fácil de penhorar, sobretudo se está em barras. A platina tem pouca saída, porque é um metal muito duro de trabalhar. E a prata, sobretudo a nossa, não vale grande coisa. No que respeita às pedras, esqueçam as safiras, os rubis e as esmeraldas, a menos que sejam de grande qualidade. Os diamantes... Ah! os diamantes! Se a senhora me traz um bom diamante, então...
Pus-me em pé e gritei:
 - Mas quem raio é você?!
O anão levantou-se também assombrado:
 - Eu? Marcelo Soares, subdirector adjunto do Monte de Piedad de Lisboa!
Pip e eu olhámo-nos de boca aberta:
 - Como? Mas isto é o Monte de Piedad?
 - Uma de suas dependências. O senhor Ricardo Espírito Santo mandou-os aqui para que não tivessem que fazer fila frente à porta.
Pip também se pôs de pé, pálida de ira:
 - Creio - tratei de intervir - que existiu aqui um mal-entendido. Muito obrigado de todas as maneiras por nos ter atendido.
 - Então os senhores não me trazem nada? Nem sequer uma pregadeira?! - queixou-se o senhor Soares - eu estava disposto, já que os senhores são amigos do senhor Espírito Santo a pagar-lhes generosamente...
 - O senhor Espírito Santo é um grandíssimo filho da puta! - bradou a minha mulher, reluzindo a sua antiga dialética de coronel polaco - E pode repetir-lhe em francês, em espanhol ou em italiano, até porque eu não sei como se diz em português! Portanto, quando o vir, traduza-lhe da minha parte! (...)

* Montepio

domingo, 7 de dezembro de 2014

Parabéns, Mário!


CONHEÇO Mário Soares ainda Mário Soares não era Mário Soares, passe a expressão - que é como quem diz há muito, muito tempo. Dos tempos em que era difícil para muitos dizer "não", nas alturas em que discordar tinha um preço que nem todos estavam dispostos a pagar. Tenho dele várias recordações, grande parte delas de infância. A mais forte,  ainda que não a mais antiga, tem a ver com a desilusão que senti quando - devia ter eu 7 ou 8 anos... - meus Pais não me deixaram acompanhá-los ao aeroporto para despedir-me dele na noite em que foi deportado para S. Tomé. 
Conheço e lembro-me bem pois do Mário Soares dos outros tempos - o do escritório da baixa, do deportado, o  da CEUD, do  exilado, ou alegria com que desembarcou em Santa Apolónia dois ou três dias após o 25 de Abril.
Nestes últimos 40 anos, estive mais vezes em desacordo que em acordo com ele. Escolhi muitas vezes um campo oposto e durante quase 30 anos não troquei sequer um "bom dia" ou "boa tarde" com quem, na prática, desde miúdo fez parte de uma "família" daquelas que não se circunscreve aos laços de sangue, mas que tem a ver com o nosso quotidiano e o dos nossos Pais. Voltámos-nos a falar há meia-dúzia de anos. Por sua iniciativa, diga-se de passagem - como se nada se tivesse passado e com a naturalidade de quem me conhece desde que nasci.
Hoje, talvez mais do que nunca, o País está dividido no que lhe diz respeito. Mas ele continua igual a si próprio - a não se calar, a defender alto e bom som o que acha como justo e correcto, motivando óbvias paixões e naturais ódios. O que é notável, convenhamos para quem cumpre, como ele, 90 anos. Goste-se muito, pouco ou nada de Mário Soares, quem tem como seus os valores da Democracia e da Liberdade deve-lhe muito. Eu devo, pese muitas vezes, repito, ter estado em desacordo com ele. Eu devo  e acho que Portugal também deve. Parabéns, Mário!