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quarta-feira, 5 de junho de 2013

Dilma em Lisboa: favor(es) com favor(es) se paga(m)...


A INESPERADA e breve passagem passagem por Lisboa da presidente Dilma Rousseff na próxima segunda-feira poderá culminar numa "troca" de favores entre os governos brasileiro e português: enquanto Brasília criará condições objectivas para que David Neleeman, o dono da companhia "Azul", possa adquirir a TAP; em Lisboa o executivo de Passos Coelho fará tudo para que a PT, no caso concreto o BES, conclua rapidamente a aquisição das participações do grupo de Tasso Jereissati e da construtora Andrade Gutiérrez na empresa de telecomunicações "Ôi". Quando se fala em "criar condições objectivas" por parte do governo de Dilma, estamos a falar na obtenção de uma linha de crédito junto do BNDES e de preciosas e valiosas posições e direitos de tráfego no aeroporto de Congonhas, em S. Paulo, para a "Azul".  Recorde-se entretanto que falta praticamente um ano para o início da campanha eleitoral para a reeleição de Dilma e que todo e qualquer gesto da presidente brasileira relativamente a importantes grupos empresariais brasileiros "cai que nem sopa no mel". Para bom entendedor...

domingo, 2 de junho de 2013

Só visto, que contado ninguém acredita...


                                                                                                                                      Foto: "Barlavento"

SE ME contassem, juro que não acreditava... Mas a notícia está lá – no jornal algarvio “Barlavento” - e não me deixa mentir: Isilda Gomes, a candidata socialista à Câmara de Portimão, assinou há uns dias um protocolo de intenções na área da “diplomacia económica local” (!!!) com uma delegação de autarcas... peruanos! Sim, estão a a ler bem: “diplomacia económica local” e peruanos. Do Peru-país, isso mesmo, não eram da Quinta do Peru... Não acreditam? Vejam a foto que atesta a “pomposa” cerimónia que deve ter ocorrido num restaurante da cidade algarvia, e onde, certamente entre umas amêijoas, um robalo e um calórico D. Rodrigo, uma algo avantajada D. Isilda teve ainda oportunidade, segundo o jornal, para lançar um “repto” ao empresariado portimonense para que estabeleçam uma “plataforma de negócios” com aquele país sul-americano. Se o ridículo se transformasse em votos, esta senhora já estava eleita. De certeza absoluta!

sábado, 1 de junho de 2013

Um desabafo à volta de Vinicius de Moraes

O BAR chamava-se "Vinicius". Pôrra, isso não é nome de bar, é de poeta - no caso de "poetinha". Caí lá por duas razões: a primeira porque um cartaz anunciava Maria Creuza, a outra porque estava a dois passos de casa. O Rio para mim tem destas coisas, é um permanente apelo à nostalgia, aquilo que não chegámos a viver (mas temos pena...), uma cidade que já não existe, mas que estranhamente essa mesma nostalgia conserva (quase) incólume. Há coisa de vinte anos, tinha tido a mesma sensação. Quando, vindo de Buenos Aires, num almoço no "Antiquaris", meu Pai me perguntou: "Queres ir ver hoje à noite o Carlos Lyra?". Eu sabia lá quem era o Carlos Lyra, nem imaginava que o "Lyra" era com ipslon, quanto mais... Mas, "claro que sim, adorava!". Fui. Tem vinte ou mais anos e ainda hoje não esqueço. Foi porventura dos momentos mais fantásticos que vivi na minha vida. Passei a saber quem era o Carlinhos Lyra (reparem na intimidade, já...), percebi que a bossa nova passava por ele e aquelas três horas a ouvi-lo no já desaparecido "Un, deux, trois" - a ele, às suas músicas, ao seu violão e às suas estórias - ainda hoje as recordo e sinto como algo de único. 
Hoje também estava no "Antiquarius". Desta vez sozinho. Saí e vim a pé, calçadão fora, do Leblon a Ipanema. Dois ou três quilómetros. Na Vieira Souto, virei à esquerda para a  Vinicius de Moraes e preparava-me para ir para casa. No cruzamento com a Prudente de Moraes, na esquina fronteira ao "Garota de Ipanema" (eles juram que foi lá que o "poetinha" viu e se inpirou na Helô Pinheiro...) vi um cartaz anunciando; "Maria Creuza. Couvert artístico. Hoje, às 23 horas". Não resisti, apesar do sono e do "amanhã"... Subi as escadas e entrei num verdadeiro "antro". Sujo, escuro, iluminado de quando em vez pelo reflexo da luz do semáforo à altura das janelas do primeiro andar, a cheirar (desculpem lá...) a mijo. Decadente? Claro! Deprimente? Sem dúvida! Mas - confessso! - algo sedutor, se calhar por essa mesma apelativa decadência. Nas mesas, turistas ou umas senhoras com idade para terem sido candidatas a "paqueras" do poeta, acentuavam ainda mais os tons de um ambiente delabrée, passado, exaurido. A garrafa de "Red Label" assentou rapidamente na mesa, o balde de gelo idem aspas e, no pequeno palco, a presença dos músicos insinuava a pronta presença de Maria Creuza. E lá veio ela. Pesada, velha, "aturistada", a invocar um estatuto (que lhe pertence, honra lhe seja feita!) de "cantora de Vinicius" e a cantar, apesar dos anos, do peso e do que nos custa recordar tudo isso, o "poetinha" com uma vontade e alma só possível para quem sente e tem memória. Não cantou muito. Falou q.b. De Vinicius, das tournés, das canções que ele compôs. E chegou. Para sentirmos a nostalgia que faz Ipanema ser, de alguma maneira, o nosso bairro, Vinicius o nosso poeta e o passado (que não vivemos, diga-se em abono da verdade...) o nosso presente. Estranho. Mas bonito!