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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Álvaro Cunhal: a propósito do seu centenário


A PRIMEIRA vez que tive oportunidade de ver de perto e trocar uma ou duas palavras de circunstância com o dr. Álvaro Cunhal foi em Havana, no aeroporto de Rancho Boyeros, quando acompanhando meu Pai que na altura desempenhava funções naquela capital, "surpreendemos" o líder comunista a desembarcar de um vôo da Aeroflot que o tinha trazido directamente de Lisboa. Tinha eu quatorze anos - estávamos em Novembro de 1975, poucos dias (ou mesmo horas...) depois de um dia 25 que, contrariamente a um outro de Abril, não lhe deve ter deixado grandes recordações. 
Ao longo dos anos e mercê da minha profissão de jornalista, cruzei-me algumas (poucas) vezes com o dr. Cunhal. Foi, salvo erro, numa campanha eleitoral no início do anos 90  que, pela primeira vez, vi o líder comunista "em acção", chamemos-lhe assim.  Estava em Castro Verde, juntamente com o Jorge Lemos Peixoto e o Augusto Baptista (o primeiro já "ex" e o segundo fervoroso e convicto militante da "causa") quando soubemos que Cunhal ali passaria, a caminho de  Mértola, onde faria um comício. Não foi difícil convencer os meus então colegas da velha  "Sábado" para rumarmos até lá, com um Augusto certamente mais discretamente entusiasmado que o Jorge, que já tinha dado há muito para aquele peditório. Em Mértola, o Augusto (excelente fotógrafo, diga-se de passagem, talvez um dos melhores com quem me cruzei em toda a minha vida!) foi a "chave" para que subíssemos para o pequeno palco do comício e acompanhássemos de perto um Cunhal que ele tratava com um íntimo tu cá-tu-lá, demonstrando uma intimidade que um sempre misterioso e enigmático Augusto nunca revelaria o mínimo detalhe. 
Acabado o comício lá seguimos por uma pequena alameda fora, lado a lado com um Cunhal aparentemente descontraído e que era saudado com uma estranha reverência por quem o interpelava, mas que  curiosamente também o tuteavam e até beijavam... O homem caminhava vigorosamente, pochette debaixo do braço, olhar prescrutante e visivelmente atento às nossas (mais à minhas, naturalmente...) reacções, um pouco como que testando-me.  A certa altura, virou-se na minha direcção e referindo-se ao (relativo) entusiasmo que rodeava a sua presença em terras mertolenses, disparou: "Isto não está nada mau, não acha?". Não sei que raio me passou pela cabeça, que dei por mim a responder-lhe de supetão e, convenhamos, pouco (ou nada) simpaticamente: "Para quem gosta sôtôr, para quem gosta...". Juro que mal tinha acabado de responder a Cunhal e só pedia que aparecesse um buraco para me enfiar, tal a gaffe que senti ter cometido. Não me perguntem qual foi sequer a reacção facial do líder do PCP perante a minha resposta porque eu arranjei maneira de desaparecer dali num ápice, meter-me no carro e só parar em Lisboa, tomado por um misto de vergonha, mas também (confesso) de algum deleite por me ter saído aquela "bojarda" da boca p'ra fora.
Mas esta não seria a minha única gaffe com o dr. Cunhal. Algum tempo depois, coube-me ir ocupar a direcção de Informação da Rádio Comercial, então ainda estatal e dentro do "universo RDP". Criei então, aos sábados pela manhã,  um programa intitulado "Prova dos Nove", que durava duas horas - a primeira em que eu entrevistava uma personalidade política; e a segunda em que um "painel" de comentadores colocava também questões ao convidado. As "negociações" para levar o dr. Cunhal aos estúdios da Sampaio e Pina duraram algumas semanas e não foram fáceis. Do lado lá, da Soeiro Pereira Gomes, o meu interlocutor era, salvo erro, o Jorge Cordoeiro, responsável pelo gabinete de imprensa do PCP que - e bem - discutia o mínimo detalhe, com especial atenção ao painel que naquela ocasião me acompanharia na entrevista ao seu líder. Depois de alguns dias de espera, veio o acordo aos três nomes que eu tinha indicado: Ricardo Leite Pinto e os jornalistas Rogério Rodrigues e o já referido Jorge Lemos Peixoto. Comentadores aceites, data agendada, tudo certo portanto. 
Lembro-me que no sábado em questão, cheguei à rádio por volta das dez da manhã, uma hora antes do programa começar. Estava no meu gabinete, revendo notas e ultimando os preparativos da entrevista, quando batem à porta e entra o Rui Onofre. Perguntará quem não sabe: quem é o Rui Onofre? Pois bem, o Rui era um antigo militante do PCP que, ainda jovem, tinha sido enviado para Moscovo para estudar e a quem, possivelmente, a realidade da pátria soviética tinha feito "abrir os olhos" (para uns), "renegar os ideais" (para outros) e converter-se num feroz e implacável crítico do comunismo. O Rui, boa pessoa, era desde há uns meses nosso correspondente em Moscovo, de onde - verdade seja dita... - enviava crónicas bastante equilibradas, ainda que se notasse de quando em quando uma certa vontade de ajustar contas com um passado que visivelmente o tinha marcado. Num segundo percebi tudo, principalmente a alhada em que estava metido... É que uma semana e tal antes antes ele tinha aparecido a despedir-se de mim, já que as suas férias estavam a terminar e iria regressar a Moscovo daí a dois ou três dias.  Numa conversa de circunstância, en passant, eu tinha-lhe referido que era uma pena que não estivesse em Lisboa quando o dr. Cunhal fosse ao "Prova dos Nove": "Se estivesses cá, punha-te no painel...", referi-lhe. A conversa tinha ficado por ali, não fosse Onofre ter ficado com a pulga atrás da orelha e adiado o regresso a Moscovo - isto sem que eu soubesse ou voltado a pôr-lhe a vista em cima. Até essa "maldita" manhã...
- "Então estás cá ainda?!"
- "Fiquei mais uns dias. Não me disse que era engraçado que eu participasse na entrevista ao Cunhal?", respondeu-me, deixando-me completamente "à nora" e sem saber como é que ia descalçar aquela bota...
Tinha três opções: a primeira, dizer ao rapaz que "nem pensar", que ele não me tinha avisado e que "agora é impossível". Mas custava-me fazer-lhe isso - percebia que ele ansiava por aquele momento. A segunda, era aguardar pelo dr. Cunhal e expôr-lha a situação, solicitando o seu agréement para a inclusão à última hora de um quarto integrante do "painel" - e era isso que devia ter feito, diga-se de passagem, ainda que adivinhasse a reacção, mais do que de Cunhal, a dos seus acompanhantes... A terceira, pela que optei, foi mandar montar mais um lugar e microfone no estúdio e... seja o que Deus quiser!
Dez ou quinze minutos antes do programa, recebi o dr. Cunhal à porta da Sampaio e Pina, cruzámos aquele longuíssimo corredor trocando algumas palavras de circunstância e lá entrámos no estúdio. Virado para a porta, eu tinha à minha esquerda e a uns dois metros de distância, Cunhal sentado numa outra mesa e, à minha direita, tinham lugar os comentadores convidados, Rui Onofre incluído. Os minutos iam passando, o início do programa aproximando-se e eu praticamente "rezando" para que o líder comunista não desse pela presença de um quarto comentador, muito menos que soubesse quem ele era. Já estávamos em pleno noticiário das onze, a pouco mais de um minuto do programa começar, quando o dr. Cunhal que até aí tinha estado a rabiscar umas notas, levantou a cabeça e se me dirigiu: "Ó José Paulo Fafe, pode chegar aqui um segundo?". Ai, pronto, já está... Lá me levantei, um olho no relógio, um ouvido no noticiário e a medo lá me aproximei da mesa do entrevistado. Falando baixinho, com uma expressão facial imperturbável, Cunhal disse-me serenamente: "Queria só dizer-lhe que neste estúdio, contrariamente ao que estava combinado, está presente uma pessoa a mais". Atrapalhado - claro - respondi-lhe de imediato: "Ó sr. dr., tem toda a razão, toda. Se quiser, essa pessoa sairá de imediato, não tem problema, a falha é minha...". Com um ar meio condescendente, mas com uma ironia bem visível, Cunhal arrumou a questão: "Não é preciso, só quero é que isso fique claro antes do programa começar!". Uff, claríssimo - quem nem água, como diria o outro... 
Já agora refira-se que na segunda hora do programa, quando Rui Onofre teve oportunidade de questionar o seu antigo líder (sim, porque na verdade ele via-o mais como isso que como qualquer outra coisa...) este não teve qualquer pejo de, com uma frieza impressionante (desculpa lá, ó Rui...) "desfazê-lo", trazendo mesmo à liça relatos tidos sete ou oito anos atrás num congresso em Almada com "um jovem que curiosamente me faz lembrar fisicamente muito o entrevistador que me colocou essa questão e que, vejam lá, defendia exactamente o contrário do que está implicitamente a defender na pergunta que me faz...".
Para terminar: tanto o dr. Cunhal como eu pertencemos aquele grupo que não fomos tocados pela fé, ainda que no seu baptismo (coisa que eu não tive), lá em Seia, a sua madrinha  tenha sido nada mais nada menos que... Nossa Senhora da Conceição. Mas apesar de ambos sermos agnósticos e se porventura existir um "lá em cima" e o histórico líder comunista ler este post, só me resta, muito respeitosa e sinceramente, dizer-lhe: "Desculpe lá qualquer coisinha, dr. Álvaro Cunhal"...

sábado, 2 de fevereiro de 2013

António Costa


DESDE MIÚDO que conheço (bem) António Costa. Não sendo propriamente amigo (até porque eu tenho aquela terrível tese que amigos, amigos nós temos na vida apenas uns quantos), é bastante mais do que um conhecido a quem tratamos por tu. Salvo erro, conhecemo-nos na casa do Estoril do impagável e sempre bem-disposto Arménio Ferreira, um médico luso-angolano que era uma personagem na verdadeira acepção do termo, de que os nossos pais eram amigos e que organizava umas festas de aniversário memoráveis - não devíamos ter então ainda dez anos. Convivi mais de perto com o "Babucha" (esse é o seu petit nom, para quem não saiba) anos mais tarde, já depois do 25 de Abril e quando coincidi com ele exactamente ao lado de quem liderava a "barricada" da defesa da democracia, leia-se Mário Soares. O António Costa vivia ali por detrás da Rua do Século, andava (salvo erro) no Pedro Nunes, passava os dias na sede socialista da Rua de S. Pedro de Alcântara e era destacadísimo militante da Juventude Socialista, de que nunca (curiosamente...) conseguiu ser líder, apesar de vontade nunca lhe ter faltado. 
Já andava na Faculdade de Direito, onde era dirigente associativo, quando o PS praticamente "partiu ao meio", com o chamado "ex-Secretariado", onde pontificava António Guterres que, no sótão de sua casa de Miraflores, liderou um grupo que decidiu apresentar um moção alternativa à de Mário Soares num congresso a "ferro e fogo" que teve lugar em 1981. Na altura, Costa optou por alinhar ao lado do grupo contestatário e dessa sua posição decidiu dar conhecimento a um, na altura, acossado Soares que, à sua maneira, lidava com a situação com aquele seu ar blazée que sempre o caracterizou até nas ocasiões mais difíceis. A conversa foi-me então contada pelo próprio António Costa já lá vão 30 (!) anos, mas eu nunca mais consegui esquecer a troca de palavras entre o então líder do PS e "a jovem promessa" (chamemos-lhe assim) a quem Soares sempre tinha depositado grandes esperanças:
- "Mário, queria dizer-lhe que decidi subscrever a moção do ex-secretariado",começou Costa
- "Ah sim, então resolveste assinar a moção dos gajos?", respondeu-lhe um Mário Soares que, ao seu jeito, fingia não dar muito importância à conversa que lhe era obviamente desagradável. E antes que o jovem Costa conseguisse explicar um motivo motivo que fosse para ficar do "outro lado", Soares colocou ponto final na conversa desta forma seca: "Pois é António, que chatice... Já viste? Deste cabo do teu futuro político por causa de uma caneta...".
Lembrei-me deste episódio quando vi, nos últimos dias, António Costa no vainãovai  para a corrida à liderança do PS, além de achar (claro!) que Mário Soares se enganou redondamente e que António Costa teve (e tem) muito futuro político - foi secretário de Estado, ministro duas ou três vezes, é presidente da Câmara de Lisboa, figura de proa do seu partido e potencial candidato a candidato a líder do PS, a primeiro-ministro e até 
a Presidente da República e tem, se não me engano, 51 anos e muito ainda para "correr". Agora o que me meteu impressão neste recente "folhetim" que teve o Largo do Rato como palco e o que me custa é ver como - nesta balbúrdia em que se transformou o Partido Socialista - Costa  lhe deu para assumir as dores de  um José Sócrates que nada tem a ver com ele e estar rodeado do pior do que esse "socratismo" já teve e onde até um inenarrável Lello (sem que seja publicamente desautorizado) se armou em seu porta-voz. 
O "Babucha" merecia mil vezes melhor...

O "tal de" dr. Franquelim e uma enorme falta de bom senso...

NUNCA VI (acho eu)  o nóvel secretário de Estado Franquelim Alves. Não se é gordo ou magro; alto ou baixo; simpático ou mal-encarado; como também não sei se é competente ou  incompetente.  O que sim sei é que de facto não lembra ao careca nomeá-lo para um cargo governamental, por muito capaz que ele possa ser e por poucas ou mesmo nenhumas culpas no cartório  possa ter tido no "dossier BPN" - não sei e para o caso, agora, também não me interessa. Mas num momento em que em termos comunicacionais, as coisas nem estavam a correr muito mal ao governo (com o "circo socialista" a dominar as atenções dos media, após uma boa prestação no já famoso "regresso aos mercados" e com as baterias apontadas a um cada vez mais desastrado Fernando Ulrich)), a nomeação do novo secretário de Estado do Empreendedorismo é um autêntico e verdadeiro "tiro no pé". E já agora, o dr. Franquelim devia ter tido o bom-senso de poupar mais estas dores de cabeça a quem (desastradamente) o convidou e, aos primeiros sinais desta mais do que previsível barrage, ter pura e simplesmente pedido escusa de assumir o cargo para o qual tinha sido indigitado. Mas não... o dr. Franquelim não resistiu e toca lá de vestir o fatinho de cerimónia e rumar ao palácio de Belém onde, depois de Cavaco lhe dar posse e em vez de estar calado, não resistiu aos microfones e a deitar umas patacoadas cá p'ra fora, garantindo estar "perfeitamente tranquilo" com a sua entrada para o governo e - mais... - definindo a sua passagem pelo grupo BPN como "uma falsa questão". É caso para dizer que com "amigos" (entenda-se "ajudantes") como este, Passos Coelhos não precisa de inimigos...