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domingo, 11 de novembro de 2012

A lucidez de Fernando Madrinha

AO LONGO dos últimos dias tentei não dar aqui a minha opinião sobre o caricato "folhetim Isabel Jonet", até pelos contornos rídiculos e aparvalhados que o próprio assumiu, com meio-mundo a reboque de uns quantos que nas redes sociais se apressaram a "crucificar" a presidente do Banco Alimentar, como se que aquilo que ela afirmou tivesse sido um disparate aquém e além mar. Li e reli  as afirmações da senhora em causa e a verdade é que grande parte do que ela afirmou não é mais do que a constatação do que vivemos (e fizemos) nos últimos anos em Portugal. Não gostam da senhora? Irritam-se com o tom de voz? Alguns dos seus trejeitos incomodam-nos? Acredito que sim, mas isso para mim pouco importa. E só "pego" neste assunto porque hoje li quatro ou cinco linhas escritas pelo jornalista Fernando Madrinha que resumem, de forma breve, lúcida e inteligente toda a polémica verdadeiramente imbecil que as declarações de Isabel Jonet provocaram:
"A campanha de certa esquerda para o linchamento público de Isabel Jonet, começando por Francisco Louçã, é vergonhosa e desonesta. Porque glosa ideias e palavras ditas por ela com um sentido muito diferente do que lhes deu na sua intervenção.

E a tentativa de atingir os Bancos Alimentares por causa de um discurso menos feliz da sua presidente é pura e simplesmente criminosa. Quem participa nestas manobras de política baixa está, objectivamente, a comprometer o pão de milhares de portugueses. Por mais que se esmere no insulto, por mais que grite e ofenda, não é de esquerda nem solidário." Ponto final, digo eu.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Sobre Miguel Relvas...

MUITOS NÃO irão gostar de ler este post. Paciência... Como eu acho que as verdades são para se dizer (no caso para se escrever...) e por muito que Miguel Relvas irrite muito boa gente, não acredito que quem saiba ler jornais e os chamados "sinais" não se tenha já apercebido que o polémico ministro-adjunto voltou, de forma subtil mas determinada, a comandar a agenda política e a  ser o homem-forte da comunicação do governo de Passos Coelho. E isso - quer queiram quer não - é, no mínimo, notável. Dificilmente alguém teria resistido à violentíssima barrage a que Relvas foi sujeito ao longo dos últimos meses - nos media, nas redes sociais, nas ruas, em tudo quanto era lugar. Outro teria natural e logicamente soçobrado, desistido, renunciado ou pura e simplesmente sido afastado - a verdade é que o "braço-direito" de Passos aguentou o que poucos teriam aguentado, teve o apoio que poucos poderão alguma vez ter tido e... aí está de novo, respondendo à oposição, lançando o debate político, enfim, desempenhando o papel que o primeiro-ministro lhe reservou quando formou o governo.
Para mim, neste momento, aqui não está em causa o chamado "caso Relvas". O que me leva a escrever este post é, isso sim, a impressionante capacidade de resistência e extraordinário instinto de sobrevivência de Relvas. Goste-se ou não da pessoa em causa, é difícil não lhe reconhecer tais atributos...

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Ruy Castro e uma notícia do outro mundo



O ESCRITOR brasileiro Ruy Castro é para mim alguém a quem eu nunca li algo que não gostasse. Desde as suas notáveis biografias às suas crónicas (quase) diárias na "Folha", passando pelo extraordinário "Carnaval de Fogo" (uma obra-prima do "carioquismo") ou pelo, por exemplo, '"O Leitor Apaixonado", onde escreve sobre livros, tudo quanto Castro escreve é cativante, brilhante, viciante até... Hoje, na sua curta crónica na "Folha", Ruy Castro fala-nos da acção judicial que Woody Allen é alvo por parte de William Faulkner. De quem? Desse mesmo, de William Faulkner! Aqui fica, o que eu chamo uma  verdadeira notícia do outro mundo e pela pena de quem escreve como ninguém:
"Do além-túmulo, William Faulkner (1897-1962) processa Woody Allen! Segundo o noticiário, a agência Faulkner Literary Rights, que controla os direitos do autor de "Luz de Agosto" e "O Som e a Fúria", está processando Woody pelo uso não autorizado de uma frase do romance "Réquiem para uma Freira", de 1950, em seu filme "Meia-Noite em Paris", de 2011. Qual será a próxima? Gertrude Stein processando Charlie Sheen? Oswald de Andrade processando Marcelo Madureira? Todos se lembram da história do filme: um escritor (Owen Wilson) viaja no tempo para a mágica Paris dos anos 1920 e fica amigo de Hemingway, Fitzgerald, Picasso, Salvador Dali e Cole Porter, figurinhas fáceis da cidade naquela época. O enredo é um show de referências literárias. A folhas tantas, o protagonista comenta: "O passado não está morto. Aliás, nem sequer passou. Sabe quem disse isso? O Faulkner. Ele tem razão. Conheci-o outro dia num jantar". A frase foi usada num contexto simpático e serve para que nos lembremos de Faulkner, num filme em que os demais bambambãs aparecem fisicamente, interpretados por atores muito parecidos com os próprios. Os agentes deveriam ser gratos a Woody por isso -mesmo porque não consta que Faulkner, endeusado até os anos 70, esteja com seu prestígio póstumo em alta. Ao contrário, já foi amplamente ultrapassado por Fitzgerald em matéria de interesse acadêmico. A citação de uma frase num filme delicioso gera um processo contra um diretor reconhecido e estimado. Em vista disso, imagino o chumbo grosso que os agentes de Faulkner devem assestar contra os piratas da internet, que "disponibilizam" livros inteiros do escritor para ser baixados de graça e sem autorização. Chumbo grosso, que nada. Contra esses piratas, mesmo os tiros de canhão equivalem aos de uma espingardinha de rolha."